Tuesday, November 14, 2006

Pelo ideal

A ouvir: Where are my panties?, por Andre 3000 e Rosario Dawson.

Há um elemento de pathos na história das relações, uma espécie de sentimento de inevitabilidade que nos faz acreditar que aquela pessoa, a pessoa ideal está ali no caminho, quem sabe ao virar da esquina. Talvez por isso tanta gente tente constantemente encontrar esse ideal, essa pessoa que lhes encha as medidas. Inevitavelmente, a cada novo encontro lá virá a questão tão popularizada: será esta a tal? À falta de resposta recorre-se à experiência: esperar para ver. Com o tempo, mesmo que não seja a tal, pode servir, pelo menos até se ter direito a secretária particular com 24 anos, cintura de vespa e busto 38 D.

Há, depois, o caso inverso: as pessoas que, sabendo a futilidade desta vida, apenas se contentam em encontrar alguém compatível com quem se possa viver o resto da vida, cumprir o instinto de procriar e suportar o resto do tempo que ainda andamos sobre esta esfera. É o meu caso. Parecendo mais fácil não o é. O chato é que as escolhas vão sendo atrasadas e acaba por se ter uma bagagem emocional bem mais carregada. Olha-se - pelo menos eu olho - para cada nova chegada com olhos de avaliação pesada no passado: «Parece porreirinha e independente, mas a C. também era e não me largava da mão...». Há um conjunto de critérios para fazer pesar no assunto e nem todas as mulheres passam neste crivo. A bem dizer, nenhuma passa, os critérios são para a tal mulher ideal.

Desta maneira, a procura, se levada ao extremo, é semelhante nos dois casos, com a vantagem da estabilidade no caso de cima e de um muito maior gozo proporcionado pela diversidade no caso de baixo. Há, no entanto, que criar um ponto de separação e esse é fornecido pela decisão: a decisão de se olhar, apontar o dedo e chamar. Por outras palavras, arriscar mesmo sabendo que há sempre possibilidades do espalhanço. O medo é uma parte demasiado pesada da bagagem, só atrapalha. Ainda assim, caso haja espalhanço, há sempre a possibilidade de «sermos só amigos», assim se saiba querer. E pedir que se apresentem os outros amigos, especialmente aquela de 24 anos, cintura de vespa e busto 38 D que procura trabalho de secretariado.

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