Friday, November 24, 2006

Nostalgia dos anos 90

Esta semana tenho ouvido, todos os dias, músicas que não ouvia há muitos dias. Há tantos dias que todos juntos formam anos. Há tantos anos que todos juntos dão à minha memória o aspecto de um queijo suíço. Como The Cardigans ou aquela que canta assim “Cause you`re gorgeous, I`d do anything for you”. Quando passa na rádio uma destas músicas, sempre entre as 8 e as 8.30 - a hora da nostalgia (para quando os anos 80?), paro no meio do quarto, de toalha na mão e cabelos a pingar, a tentar lembrar-me daquelas viagens de autocarro em que o meu walkman tinha descanso da música obsoleta que gravava do programa Alta Tensão da Antena 3 (todas as noites, de domingo a quinta, ligava a luz às 23:59, preparava a cassete, ligava a aparelhagem aos phones comprados no chinês, carregava no play e voltava a apagar a luz, os meus pais a dormir no quarto ao lado). De quando em quando, lembrava-me da cassete de música pop e isso é que eu gostava de a ouvir enquanto sonhava com o rapaz do 11º C, que usava aparelho, mas eu não me importava. Só alguns meses depois é que viria a saber como se chamava, mas nessa altura já não sonhava com o rapaz do 11º C, mas sim com o cabeludo da paragem do autocarro.

The Cardigans, cassetes, paixões efémeras. Se não soubesse tudo o que já sei hoje, que não é nada, diria que às vezes tenho saudades de ter 16 anos. Em que o meu walkman enrolava as cassetes e o cabeludo da paragem do autocarro nunca me ligava nenhuma. E as Doc Martens, depois de algum tempo, deixaram de me aleijar os pés.

Tuesday, November 14, 2006

Pelo ideal

A ouvir: Where are my panties?, por Andre 3000 e Rosario Dawson.

Há um elemento de pathos na história das relações, uma espécie de sentimento de inevitabilidade que nos faz acreditar que aquela pessoa, a pessoa ideal está ali no caminho, quem sabe ao virar da esquina. Talvez por isso tanta gente tente constantemente encontrar esse ideal, essa pessoa que lhes encha as medidas. Inevitavelmente, a cada novo encontro lá virá a questão tão popularizada: será esta a tal? À falta de resposta recorre-se à experiência: esperar para ver. Com o tempo, mesmo que não seja a tal, pode servir, pelo menos até se ter direito a secretária particular com 24 anos, cintura de vespa e busto 38 D.

Há, depois, o caso inverso: as pessoas que, sabendo a futilidade desta vida, apenas se contentam em encontrar alguém compatível com quem se possa viver o resto da vida, cumprir o instinto de procriar e suportar o resto do tempo que ainda andamos sobre esta esfera. É o meu caso. Parecendo mais fácil não o é. O chato é que as escolhas vão sendo atrasadas e acaba por se ter uma bagagem emocional bem mais carregada. Olha-se - pelo menos eu olho - para cada nova chegada com olhos de avaliação pesada no passado: «Parece porreirinha e independente, mas a C. também era e não me largava da mão...». Há um conjunto de critérios para fazer pesar no assunto e nem todas as mulheres passam neste crivo. A bem dizer, nenhuma passa, os critérios são para a tal mulher ideal.

Desta maneira, a procura, se levada ao extremo, é semelhante nos dois casos, com a vantagem da estabilidade no caso de cima e de um muito maior gozo proporcionado pela diversidade no caso de baixo. Há, no entanto, que criar um ponto de separação e esse é fornecido pela decisão: a decisão de se olhar, apontar o dedo e chamar. Por outras palavras, arriscar mesmo sabendo que há sempre possibilidades do espalhanço. O medo é uma parte demasiado pesada da bagagem, só atrapalha. Ainda assim, caso haja espalhanço, há sempre a possibilidade de «sermos só amigos», assim se saiba querer. E pedir que se apresentem os outros amigos, especialmente aquela de 24 anos, cintura de vespa e busto 38 D que procura trabalho de secretariado.

Sunday, November 12, 2006

It´s all about the way you dance

É mais fácil fechar os olhos aos defeitos, tiques, manias de um homem com quem mantemos uma relação descomprometida. Primeiro porque não estamos todo o tempo juntos e o tempo que o estamos resume-se a passar imediatamente ao que se pretende e acabamos por nunca ter tempo, nem disposição, para assistir aos rituais escabrosos de cortar as unhas para dentro do lava-loiças ou de fazer uma bolinha com o macaco que acabou de tirar do nariz e atirá-la para trás do sofá como quem joga ao guelas. Depois porque, se por um acaso assistirmos a alguma coisa destas, temos uma certa liberdade para nos desmanchamos a rir na cara dele sem medo de ferir acordos pré-nupciais. Ou porque, simplesmente, sabemos de antemão que a relação tem os dias contados e não nos vamos preocupar por aí além se, durante o sexo, as unhas dos pés dele nunca nos arranharem as pernas.

O pior é quando a relação está naquela fase mesmo antes do fim, quando já não nos apetece muito estar com ele, mas a ocasião até se proporciona e não inventámos uma desculpa manhosa a tempo e depois, olha, mais uma queca também não faz mal a ninguém. Só que nem só de quecas vive uma mulher e a verdade é que, às vezes, uma gaja tem de fazer das tripas coração para aguentar muita coisa. Como o fio de pechisbeque que ele teima em usar e que balança por cima de nós e nós fugimos com a boca para não tocarmos no penduricalho que ele não tira nem para dormir. Ou como a barba aparadinha que ao princípio até nos fazia lembrar o Edward Norton, mas que agora nos faz comichão quando ele pensa que nos excita com beijos monótonos no pescoço durante meia-hora (ó homem, passa lá aos preliminares a sério). Ou a maneira como ele dança Queens of the Stone Age como se estivesse a saracotear-se com um cordãozinho de flores ao pescoço no Hawai. Queens of the Stone Age não se dança assim. Só as músicas-do-gozo é que se dançam assim. E eu não sei por que raio é que ando a sair com um gajo que não percebe que QOTSA ou qualquer outro tipo de música que passe em discotecas onde passa QOTSA não é para gozar.

Foi o fim da picada. Pior do que todas as picadas da barba e do penduricalho à homem de Neardental. E por muito que tenha tentado escondê-lo dos amigos e evitar sair com ele em público e guardá-lo em casa como se guardam as coisas de que temos vergonha, não vale a pena, que isto agora já nem com sexo lá vai. E nem é por causa da barba ou das frases feitas ou dos sapatos horríveis. É mesmo porque já não me apetece. E a música parece-me ser uma boa desculpa para acabar uma relação que nunca começou. Já ouvi falar de relações a sério que acabaram por menos. E não estou com vontade de me sentir culpada. Ou será que devia?

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