Thursday, October 05, 2006

O jantar

Tinha chegado pontualmente, com sapatinhos polidos e um bolo na mão. Fui eu que o fiz, disse-me, ao entrar, como se uma mulher também se prendesse pelo estômago. Agora, sentado à mesa, olhava para mim com curiosidade enquanto eu desligava o fogão.
Queres ajuda?, perguntou, quando me viu a tentar debruçar a panela pesada.
Vivo sozinha, esqueceste-te? Se precisar de um homem para segurar uma panela, terei de rever as minhas prioridades.

Duranto todo o jantar, que de romântico pouco teve, já que me esquecera de tirar as velas e o saca-rolhas se partira antes de conseguir abrir a garrafa de vinho, tentei mostrar-lhe o melhor que pude que a sua presença ali se devia a um acto de caridade para com as aflições corporais e nada mais que isso. No fim, pedir-lhe-ia que não ficasse para dormir, no outro dia teria de me levantar cedo. Quando se despedisse, desejar-me-ia um “fica bem” de quem acaba de decidir não voltar a ver-me próximos dias. E eu, aí, sentiria pena. Dele e de mim. Dele, porque lhe daria um beijo apagado como conclusão de uma série de suspiros e suores quentes e me viraria imediatamente de costas. Porque o convidaria para fumar um cigarro comigo apenas porque não o quereria fazer sozinha. Porque começaria a falar de outras coisas como se ele fosse um amigo gay. De mim, porque ele me faria lembrar como eu era há uns anos, como eu esperava por reacções, sabendo que nunca lhe poderia dizer que aquilo para mim era mais do que apenas uma hora de sexo, e porque o olhava com medo que o meu olhar me traísse e quando me ia embora, sabia que ele não ia pensar mais em mim. Assim como, neste domingo, eu iria dormir sem pressas como num domingo normal e, depois de acordar, sozinha, não me lembraria sequer de me lembrar da noite anterior. Sentiria, apenas, que o meu corpo estava muito mais calmo. Como por um acto de magia.

Poder-me-ia sentir mal com isso. Mas não suporto homens que se encharcam em perfume.

Sunday, October 01, 2006

Outra vez


Banda Sonora para o post: Never gonna fall in love again, Snow Patrol

Faz parte do crescimento, diz-se. Apaixonarmo-nos, amarmos fervorosamente, sermos felizes, termos o coração partido, pensarmos que nunca amaremos outra vez. É quase inevitável e o último ponto é mais frequente na adolescência. Quem não o passou que levante o braço. Vamos lá, larguem o rato ou o teclado e levantem o braço. Ninguém?... Bem me parecia.

Não, não vou dizer que sou o único. Porra, bem longe disso. Duas mulheres no meu passado (OK, a primeira era mais do tipo rapariga) bem existem na minha memória para o atestar. Com o primeiro caso a coisa foi complicada, tal como todas nos tempos de secundário. Tive de fazer um esforço para a esquecer e convencer-me que encontraria outra. Ou outras, como descobri mais tarde. Mas não as amava. Quer dizer, não por muito tempo, isso só voltou a acontecer mais tarde.

E foi o pior caso. Já falei dele antes, mas claro que as coisas não foram tão simples quanto isso. Como se pode ver no post, fiquei mais cínico, menos propenso à abertura das novas relações. Também a idade não ajudou, antes complicou. Os jogos não satisfazem, aborrecem. Vejo mais facilmente as falhas nas mulheres que conheço. Há como que um catalogar das mulheres por defeitos após o primeiro contacto. Há, no fundo, e usando de psicologia de algibeira (ou de cinema, dependendo da perspectiva), um receio intímo da nova relação. Há um receio de me perder novamente ao pronunciar novamente a palavra, especialmente porque tenho a enervante tendência de apenas a proferir quando ela expressa a realidade.

Claro que esta psicologia, mesmo sendo de algibeira, está parcialmente correcta. Esse receio está presente e não mais é que humano. Claro que a sua presença nesta idade só pode significar que não resolvi correctamente certos assuntos no passado, mas enfim, há que preserverar. O outro ponto importante a sensação de não me poder voltar a apaixonar. Lá está, never gonna fall in love again. Esta sensação, por se ter verificado desde há bastante tempo, assumiu contornos de certeza. É uma certeza pífia, bem o sei. A única certeza que posso ter é que realmente me voltarei a apaixonar no futuro. O problema é se não o noto, se estou tão certo que não é possível que isso acaba por não acontecer. Para mais, para a palavra sair dos meus lábios, tem que ser transmitida numa intimidade que não se consegue num encontro, acabe ele onde acabar.

Há contudo um twist nesta história. Não tenho medo de dizer a palavra, não terei medo de assumir o amor que venha a ter e a partilhar. Não é o momento que me assusta. É a possibilidade de esse momento desaparecer. Ainda assim, feliz ou infelizmente, é precisamente dessa forma que as coisas funcionam. E é o desconhecido que torna tudo tão interessante. E que desactualiza a música dos Snow Patrol, já agora.

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