Thursday, July 13, 2006

O gosto de quem se gosta

Há um momento no livro e no filme em que o narrador - eu - diz que o que importa não é como se é, mas aquilo de que se gosta. «It's not what you are like, but what you like». Mais tarde, no livro - no filme não - acaba por recuar na posição e chegar à conclusão que como se é acaba por ser mais importante que aquilo de que se gosta. Ou que o outro - outra - gosta. Aqui, obviamente, já não sou eu. Eu nunca diria algo de tão idiota como isso.

A laura já falou nisto no post aqui abaixo. Ela abordou o assunto sob o ponto de vista de quem está a pensar numa boa queca, num one night stand que também seja um last stand. A ela faz-lhe diferença que o alvo goste de Bon Jovi. A mim, que sou homem, não. Pelo menos se é um one night stand. Se a mulher for gira, com bom corpo e, perdoem-me a expressão, fodível, tanto se me dá que goste de Bon Jovi como do período azul do Tchaikovsky. A música só me serve a mim para a engatar. A partir do momento em que a coisa parece estar no bom caminho até lhe canto o Bed of Roses se isso a motivar a explorar a mesma. Não, no caminho de uma boa queca não se mete a música, embora uma gaja que possa gostar dos nossos grandes artistas pimba me possa remover qualquer calor.

Do que falo sobre gostos e personalidades é mesmo em relação às relações mais estáveis - leia-se, que durem mais de um mês. Obviamente que a personalidade é importante. Se a mulher em causa não tiver uma (personalidade) não vai haver colecção completa do Stephin Merritt que convença a prolongar uma relação. No entanto há algo de fundamental: a personalidade também é definida por aquilo que se gosta. Ou, modificando as minhas (do Rob) palavras iniciais, «what you like influences what you are like». E vice-versa, pois claro.

Vejamos: falando da C. e da D., duas magníficas criaturas que conheci em tempos e sobre quem pensei que a procriação poderia ser um assunto a explorar em conjunto. A primeira, a D., tinha um gosto infalível. Boa pop - um ou outro podre no armário, mas também eu me vou abaixo com algumas lamechices - e boa literatura. Uns quantos filmes interessantes e conversas inteligentes capazes de me agarrar sem ser a olhar-lhe para os lábios (ou peito). Um defeito: queria uma vida conjugal tradicionalíssima, casar rapidamente, ter filhos e estabilizar no primeiro canto possível. Sinceramente, ainda que isso me tenha passado pela cabeça, alguém que pareça ter apenas esta ambição - para mais sendo inteligente - deixa-me logo desinteressado. Os gostos («what she likes») estavam bem, o problema era mesmo a personalidade («what she's like»).

Havia depois a C., outra mulher linda de morrer e em cujos caracóis pensei fazer ninho. Divertida, também inteligente, personalidade fantástica. Interessada em acoplamento? Sim, mas com calma que há muito que viver. Perfeito, fantástico. Fantástico? Nem por isso. Música? Trance a bombar ou lamechices de fazer chorar as pedras da calçada por pena e a mim por raiva de ainda não ter visto os artistas pendurados pelas partes pudibundas. Filmes? Comédias românticas, género que se sabe essencialmente esgotado desde o When Harry met Sally. Ou dramalhões que nem sequer janeaustenianos são. Não há pachorra.

Qual seria então a importância desde que houvesse... ugh... amor? Bom, admitindo que esse existe desde o início (raramento creio nisso, mas assumamos que sim), o problema surge a certo ponto. É que ainda é possível ignorar a Shakira ou o James Blunt no início, por uma semanita ou, nos casos mais extremos, um mês, mas o que fazer quando vamos festejar o primeiro aniversário e ela decide colocar aquela lamechice do You're beautiful porque «a ouvimos quando nos conhecemos»? Não, santa paciência mas não. E depois se ela quiser que vamos com ela ver os, sei lá, Corrs ou algo de pior? Proponho-lhe antes irmos aos Massive Attack que ela julga serem uma banda de hip-hop ou de heavy metal? Não dá, meus amigos, não dá. Imagino-me a picar uma cebolinha para o refogado e ela a decidir colocar o CD mais recente do Elton John. O prato mudaria rapidamente de guisado para cabidela, tais os golpes que eu daria nos próprios dedos por terror e para esquecer aquele som horrível. Os gostos podem ser dela e não se discutirem, mas dão muita discussão depois.

Até pode ser possível que com estas exigências eu acabe sozinho. É verdade. Mas pelo menos não terei quem me chateie por causa dos meus gostos musicais. Talvez o gato, mas a ele posso enfiá-lo na varanda.

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