Sunday, July 30, 2006

A mulher amiga

Mulher amiga? Pleonasmo, por certo, mas às vezes não por opção. No caso da J. eu bem preferiria que nao o tivesse sido. Ou antes, que não tivesse sido apenas amiga. Eu ia falar deste caso noutra altura, na ordem original estava a E., mas a laura lá me forçou a mão.

Situo a acção: a J. era uma amiga minha nos períodos da universidade (ainda o é, mas o presente não é para aqui chamado) e por quem, para atalhar o assunto, me apaixonei perdidamente. Sério. O caso era sério. Especialmente porque foi uma paixão que cresceu lentamente ao longo do tempo que nos conhecíamos. Até aqui nada de anormal. A velha história: boy meets girl, boy falls in love with girl, girl dá com os pés ao boy. Certo? Errado, respoderá quem tiver lido o título do post. Como é óbvio teria de haver algo de mais na história. Também não é original, é tão-só o caso de sermos amigos. Já o disse? Pois, mas não o disse como. Éramos amigos a sério, daqueles que telefonam um ao outro constantemente, que contam as desgraças amorosas e as inseguranças que nos assolam, sejam elas quais forem. A coisa foi ao ponto de ela dizer que eu era o "irmão mais velho". O chato era aquela tendência para o incesto que me ia consumindo.

Como lidei com o assunto? Pois bem, lidei não lidando. Fui vendo a procissão de namorados dela e fui afogando as minhas mágoas noutros lençóis. Aturei-lhe as lágrimas a cada rompimento e os risos a cada início. E esperei que um dia visse nos olhos dela algo que não estava por lá. Enfim, esperei, como é óbvio, em vão. Até um dia em que, numa noite de insónias, percebi que já não procurava esse olhar por vontade, antes era por hábito, por vício.

Queimei essa ânsia numa carta que, até a enfiar no marco do correio, não tinha a certeza de enviar. Contei-lhe tudo, todo o amor que por ela nutrira, que por ela nutria ainda, apenas e só na versão de amizade. Exorcizei aquele fogo em linhas excritas pela noite fora, ao longo de várias páginas de honestidade, a moeda que ela merecia receber. Provavelmente ela já o sabia. Não tinha a certeza. Não a tenho ainda. Nunca me referiu a carta. Deu-me apenas um abraço sentido uns dias depois, num olhar que ardeu com uma chama que eu esperei durante anos, mas desta vez de outra cor. Éramos ainda amigos e sê-lo-íamos até hoje. O que poderíamos ter sido não sei, nunca o soube.

Talvez seja, contudo, melhor assim. Possivelmente a relação fracassaria ao fim de uns meses. Hoje olho para trás e vejo que não a aturaria como namorado mais que esse tempo. O amor existiu mas foi depois mantido mais pela incerteza que por uma qualquer chama. Naquele abraço soube-o. Talvez por isso completei o exorcismo nos braços da amiga colorida da altura, loura, voluptuosa e absolutamente chata. Mas a amizade não era para ali chamada.

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