História de uma vida amorosa 1
O meu primeiro amor foi a R. Os tempos eram os do início do ciclo - ainda se chamava assim naqueles tempos - e a paixão foi arrebatadora, tendo em conta a idade. Creio que pensei nela ainda durante umas boas duas semanas. Até a minha mãe chegou a notar que eu não andava normal: quase não tocava nos livros de Uma Aventura e a cassete dos Abba que lhes tinha roubado, a ela e ao meu pai, já não tocava há uns dias na aparelhagem - se podíamos chamar assim a um rádio com um leitor de cassetes que, afortunadamente, estava ligado a umas colunas roufenhas que já tinham perdido metade das peças. Veio falar comigo com aqueles trejeitos maternais, entre o carinhosa e o preocupada que andasse a chocar outra ida ao pediatra para estoirar mais um orçamento mensal da família. Lá confessei o amor pela R., por aqueles caracóis louros, por aquele sorriso luminoso e aquele andar decidido. Claro que naquela altura não me expliquei nesses termos. Saiu um seco «Gosto mesmo dela!» ao que a minha mãe terá sorrido a pensar que ainda tinha muito tempo até ter de se preocupar com potenciais netos repentinos e não anunciados.
Foi realmente coisa para duas semanas. Talvez mesmo uns 18 dias. Andei afectado no recreio e nos tempos livres. Quase não falava com ela e evitava inclusivamente olhar numa direcção geral que a embarcasse. Eram os velhos problemas da maturidade masculina - ou falta dela - perante a feminina - ou excesso dela - com os rapazes a ficarem sempre meio perdidos na presença de qualquer rapariga. As raparigas podiam ter de se preocupar com umas manchas vermelhas nas cuecas, mas a verdade é que tinham uma mãe para lhes falar dos factos dessa vida. Onde andava o pai para nos explicar que o endurecimento súbito de algo que sempre imaginámos como só servindo para se entalar no fecho das calças era causado pelas raparigas de quem nem sequer gostávamos? Complicado, é verdade.
Ao fim desses dias lá voltei à minha ignorância da existência da R. no meu universo, continuei a gastar a cassete dos Abba especialmente na parte do The winner takes it all e manuseei os livros d'Uma Aventura ao ponto de ver as páginas do terceiro capítulo a surgir inesperadamente perto do fim. A vida voltava ao normal e até quase esquecia aquela perturbação. Até que apareceu a C. e percebi que a inocência estava mesmo perdida.

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