Saturday, June 24, 2006

Bloc Party for Bored People

Tirando poucas excepções, sou contra a corrente. Nunca vi o "Senhor dos Anéis" ou o "Matrix", não gostei de Os Maias, o Kurt Cobain foi-me sempre indiferente e passei a minha infância sem conseguir suportar o cheiro ou o sabor de chocolate. Um sério caso clínico, talvez. Mas acho que o facto de toda a gente gostar da mesma coisa me tira o tesão.
Em relação à música, e dando um exemplo pobre, só há pouco tempo, há coisa de dois ou três meses, é que comecei a ouvir "Silent Alarm" dos Bloc Party. Mais por mero tédio num fim-de-semana chuvoso do que propriamente por curiosidade. Numa altura em que já ninguém fala deles porque estas bandas são como a chuva, cai durante três dias consecutivos e depois toda a gente se esquece dela ao primeiro raio de sol.
Às vezes sinto que perco algo, que passo ao lado de uma coisa que me podia fazer sentir parte de um movimento, de uma corrente, de um novo estilo de vida. Mas hoje em dia já não há novos movimentos, nem artísticos nem políticos, o mundo é um espaço uniforme de pessoas iguais que se consomem em tentativas vãs de serem originais. É como se tudo já tivesse sido inventado e não houvesse mais nada por que lutar. O mundo está chato.
Foi por isso que só na passagem para o século XXI me comecei a identificar com a música dos anos 80. Porque os anos 90 não me trouxeram nada e a minha adolescência foi perturbada pela Rádio Cidade. Agora, com centenas de cds em casa dos mais variados estilos musicais, tenho dias em que não me apetece ouvir nada, porque me soa tudo ao mesmo. Querida Maria, serei normal?

Monday, June 19, 2006

Chama-se pop music, não pop lyrics

Confesso que nunca relacionei a música com o amor - ou pelo menos com as relações - por causa das letras. Sempre me bastaram as melodias. Uma razão foi óbvia a início: eram numa língua que dominava. É muito bonito dizermos à colega do primeiro ano do ciclo - a E., mas falarei dela noutra altura - que gostamos muito dela e até podemos achar que certa música ia bem, mas a verdade verdadinha é que cantar-lhe mesmo algo de muito básico como o Angie dos Rolling Stones de nada serviria: fora o nome - que não era o mesmo, mas isso era pouco importante à época - nada seria compreendido.

Mais tarde optei por um caminho diferente: aprender as letras das músicas de cantores portugueses, especialmente aquelas que pudessem ser acompanhadas com uma viola à noite em redor de uma fogueira em acampamentos de férias. Resultado: o reportório de baladas de Sérgio Godinho, acrescido a muita coisa de Zeca Afonso e Adriano. Se os dois primeiros de nada serviam, já o Godinho dava um jeito enorme: um A noite passada bem esgalhadinho - vá lá que o Sérgio Godinho também tem voz de cana rachada e escreve músicas a contar com isso - a olhar bem nos olhos do alvo e nessa noite já havia marmelanço.

Mas sejamos sinceros: quando ia em excursões com os colegas - as famosas visitas de estudo - não se colocava a cassete de Pink Floyd - tinha de ser sempre Pink Floyd - à vinda por causa das questões autobiográficas do Roger Waters. Quem é que ligava aos versos a não ser para impressionar as miúdas? O Wish you were here era tocado pela musiquinha perfeita para segredar ao ouvido e pelo título. E se alguém acha que o Shine on your crazy diamond ou o Comfortably numb serviam pelo seu valor poético, nunca se deve ter sentado nos bancos de trás de um autocarro com as cortinas a cobrirem-no mais a parceira do lado.

Não, a música é fantástica para o engatanço, para relembrar os amores passados - bem ou mal sucedidos, bem ou mal terminados - mas não é apenas pela sua letra. É mesmo pela música. Ainda hoje coloco o Little vianese waltz quando estou melancólico, mas não é pela letra. É mesmo pela música. Até porque nunca estive em Viena.

Sunday, June 18, 2006

Paisagens emocionais – Homogenic, Björk


Voltei a ouvir Homogenic quando acabei com ele. Não sei porquê, não era um álbum que tivesse marcado a nossa relação e nem sequer o conhecia quando comecei a ouvir a cantora islandesa. Creio que terá sido dos únicos álbuns que não ouvia com regularidade durante os dois anos em que estivemos juntos. Ouvia The Cure, Placebo, Belle Chase Hotel, Ornatos Violeta, mas não Björk. Não sei porquê. Por isso era uma música neutra que podia pôr no carro a caminho de Lisboa que não me fizesse espetar contra uma árvore devido ao estado de emergência emocional em que me encontrava. Mas ela cantava "State of emergency", em Jóga, como se falasse comigo.
Lembro-me de sentir o meu coração como um motor que arranca aos poucos ao ouvir Hunter, a urgência mecânica de sair do torpor de um final de relação, como um carro a que falta a gasolina mesmo antes de entrar no posto. O ritmo de marcha em Bachelorette e 5 Years, o avançar das tropas para a frente de batalha, o obrigar-me a erguer a cabeça e a dizer “está tudo bem, já passou”. Passou, eventualmente.

Seis anos depois oiço All is Full of Love e lembro-me exactamente de como me senti naquela noite de chuva em direcção a Lisboa, para ir sair com os nossos amigos e ele e a nova namorada dele. De como, depois de repetir, à medida que o pára-brisas afastava a chuva de um lado e de outro, o meu mantra “está tudo bem”, afoguei, pela primeira vez, as mágoas em tequilla e acordei na sala de alguém, tendo a certeza de que toda a gente tinha percebido de que não estava nada tudo bem. Paciência, pensei, para a próxima disfarço melhor. Até não ser mais preciso disfarçar.

Hoje, voltando a ouvir Björk com o ouvido clínico de quem já ouviu o mesmo muitas vezes, pergunto-me se realmente alguma vez esteve tudo bem.

Saturday, June 17, 2006

Música da semana e complemento do último post

Find yourself a girl, and settle down
Live a simple life in a quiet town

So steady as she goes

Your friends have shown a kink in the single life
You've had too much to think, now you need a wife

Steady as she goes (steady as she goes)
So steady as she goes (steady as she goes)
Well here we go again, you've found yourself a friend, that knows you well
But no matter what you do, you'll always feel as though you tripped and fell

(...)

Settle for a girl and buckle down
Send it to the crowd that's gathered round
Settle for a girl and buckle down
Send it to the crowd that's gathered round

Steady as she goes
Are you steady now?

Steady as she goes by The Raconteurs, música da semana 10 vezes por dia em repeat

Wednesday, June 14, 2006

O que seria

Às vezes penso que teria sido mais fácil ter terminado a universidade, esperado um ano ou algo do género e casado. Seria agora um feliz pai de dois ou três crianças aos berros numa carrinha break a caminho das férias no sul de Espanha. A minha querida esposa seria provavelmente uma colega numa outra empresa e conseguiríamos que a irmã ou um casal amigo - inevitavelmente antigos colegas - nos ficassem com os filhos enquanto teríamos um jantarzinho romântico por semana. O pico do fim de semana de Verão seria o descanso na rede, à sombra e a dormir, já depois de chegar da praia e enquanto a mulher meteria os putos na banheira. A vida seria simples, com contas para pagar mas uma segurança inigualável. Como seria bom.

Claro que depois acordo afogado em suor e em lençóis. Odeio estes pesadelos. Dá-me sempre para isto quando vejo as comédias românticas na televisão. Sou demasiado impressionável. Vá lá que desta vez não cheguei ao ponto do sonho em que vou à colecção de música e saco do último albúm dos Santos e Pecadores. Da última vez que isso aconteceu vomitei na cama. E da vez que vi a colecção de DVD's, com os títulos da Comédia Clássica Portuguesa a despontarem, acabei nas emergências do hospital, só tendo acalmado quando um enfermeiro colocou um CD de Dinosaur Jr. a tocar ao lado da minha maca.

Acalmo-me. Pego no maço de cigarros em cima da mesa de cabeceira. Por cima da cabeça dela para não a acordar. Conheci-a na noite anterior, não há motivo para a ver de mau humor, a relação não está avançada o suficiente para isso. Vou até à varanda olhar o movimento cá em baixo. Tenho de ligar a algum pessoal, está a apetecer-me mandar um salto à Fnac comprar uma meia dúzia de CD's, beber uma imperial ali para o café e a seguir ir mamar umas sardinhinhas assadas regadas com vinho verde para os lados do rio. Esta merda dos pesadelos é lixada. Casamento... do que se vão lembrar a seguir?...

Thursday, June 08, 2006

O Jerry Lewis e a rejeição, um estudo comparativo

Ontem um gajo perguntou-me porque é que eu lhe disse que não.
No princípio do ano comecei a encontrar-me com um colega de trabalho por interesses puramente linguísticos: ele ajudava-me a desenferrujar o meu inglês e eu dava-lhe apoio na aprendizagem do português. Encontrámo-nos durante 3 domingos seguidos e no último ele convidou-me para ir ao teatro. Era uma peça em inglês, por isso não desconfiei que pudesse haver outro interesse para além de matar o tempo em domingos chuvosos e alargar o intercâmbio liguístico a outros ambientes.
No fim da noite (depois da ida ao teatro e de umas quantas canecas) perguntou-me se queria ir para a cama com ele. Assim, sem mais nem menos. Sem quaisquer jogos de olhares ou roçar de mão, sem qualquer indicação da minha parte (ou da parte dele!) que pudessem levar a fantasias nocturnas.
Recusei, ao princípio de um modo politicamente correcto (não lhe podia dizer que a visão de ter um gajo com tiques de Jerry Lewis em cima de mim me causava uma incontrolável ataque de riso), mas depois, ele como que insistindo em arrancar confissões da minha parte como confirmação de uma intimidade que nunca havia existido, o Jerry Lewis começou a aparecer-me em sonhos e tive de cortar o mail pela raiz. Apanhando-o à saída do trabalho, disse-lhe que queria ficar em casa no próximo domingo, assim como em todos os domingos seguintes e que o nosso intercâmbio linguístico tinha deixado de fazer qualquer sentido, dando-lhe a entender que o querer ficar sozinha aos domingos não se devia ao facto de eu ser uma anti-social domingueira, mas sim que não o queria ver mais.

Ontem, meses passados depois da nossa última conversa em torno dessa rejeição, voltámo-nos a encontrar. Foi o tempo de (ver o último post) ele começar a sair com outras colegas de trabalho e eu deixar de ter razões para ter nojo dele. Mas assim que ele fez a malfadada pergunta, voltou-me a indisposição e tive de pedir licença para ir à casa de banho.
(Eu nunca perguntaria a um gajo porque é que ele me tinha deixado, rejeitado, parado de telefonar. Viver na ignorância é, por vezes, melhor do que saber as razões que levaram alguém a perder o interesse por nós. Sejam elas quais forem, dói sempre. Mas esta insegurança machista não é nova. Parece que o protagonista do High Fidelity, como é que ele se chamava?, passou pela mesma crise. Enfim, homens.)

A verdade é que não suporto falta de tacto. Ir para a cama com alguém que nem sequer se dá ao trabalho de nos dizer que somos a rapariga mais bonita do mundo (mesmo que seja mentira mais batida da história do flirt) só num caso de desespero extremo. E três domingos de conversas mais ou menos aborrecidas (dependendo de qual a língua que estava na roleta) não é tempo suficiente para criar desejo sexual. Bom, pelo menos para mim não foi. Mas não lhe disse isto.
Há gajos que precisam de continuar a achar que se uma rapariga não vai para a cama com eles ao terceiro encontro (ou ao primeiro) é porque sofre de graves distúrbios psicológicos. Foi o que lhe respondi, depois de 6 minutos na casa de banho a limpar o suor da pergunta dos 5.000 Euros:
- Sofro de graves distúrbios psicológicos.

Quando cheguei a casa tinha um e-mail dele a convidar-me para reiniciar os nossos debates linguísticos ao domingo. Mas será que ele não percebeu que eu sou, de facto, uma mulher perturbada?

Tuesday, June 06, 2006

Ventos com mudança


Às vezes é incrível a evolução dos gostos musicais. Não imagino, hoje, como me foi possível apreciar os Scorpions do Wind of Change - o Still loving you não me puxou nunca, facto que quase me fez acreditar num qualquer deus dos críticos musicais - por alturas do liceu. Ou acreditar que Pink Floyd eram o cúmulo da música pop ao mesmo tempo que desprezava os Cure ou os Violent Femmes. Lembro-me ainda do meu colega T. - na escola secundária, bem entendido - a olhar para mim com cara de «Se me insultas outra vez dessa maneira levas um estoiro que não te levantas...» quando lhe perguntei se gostava do tal albúm dos Scorpions. É daquelas coisas inexplicáveis.

Ainda assim levo a humilhação mais longe. Possuo uma cópia do disco, em vinil, do Wind of Change. Sim, é razão para auto-flagelação contínua até ao fim da carreira dos Rolling Stones. A minha desculpa é simples: foi-me oferecido pelo meu pai após uma viagem de negócios à Alemanha - de todos os lugares possíveis... - com a intenção de presentear o seu filho adolescente com algo que gostasse. Não o deitei fora - agora, já na idade adulta - porque é de mau tom fazer isso com prendas musicais - se bem que no que toca aos Scorpions falar de música é algo de extremamente relativo até para duros de ouvido. A única excepção foi com um CD da Mariah Carey que o meu paizinho achou que eu poderia ouvir com prazer. Esse voou à primeira oportunidade da janela do automóvel a 135 km/h na autoestrada e se a polícia me tivesse visto pagaria com prazer a multa desde que não me obrigassem a ir buscá-lo. O dos Scorpions é guardado para um dia em que possa mostrar mostrar a um futuro e hipotético filho aquilo que eram discos. O que era o tal do vinil. Claro que quando ele perguntar se o podemos ouvir eu farei cara de marciano e direi que há muito tempo que não tenho um gira-discos.

O mais curioso é mesmo verificar que os gostos, ainda que evoluídos, regrediram no tempo. Hoje colecciono Pixies e Violent Femmes. Descubro Rolling Stones e Beatles. Converto-me a David Bowie e Smiths. O meu amigo T., que na altura confessava ouvir um tipo com o nome de Tricky cujo nome nada me dizia (hoje ouço o Maxinquaye pelo menos uma vez por mês) pouco mais evoluiu que para os albúns seguintes dele e dos Massive Attack. Quando o reencontrei perguntei-lhe se gostava de Herbert, Matmos e Björk. Com o último nome, depois da expressão vazia perante os dois primeiros, deu-me um olhar de «Que raio de coisas mais estrnhas este gajo anda a ouvir» e disse-me que não gostava muito dos últimos albúns dela. Ainda estive para lhe perguntar pelos Scorpions, mas a noite até me estava a correr bem e não queria levar com um murro quinze anos atrasado.

Monday, June 05, 2006

Encontro com o M.

No outro dia encontrei o meu último ex-namorado. Não o encontrei por querer, que ex-namorados é algo que só se encontra depois de muitos meses, ou anos, de desgustação e ponderação, juntamente com alguns sapos enfiados a custo pela garganta abaixo, para quem ainda se dê ao trabalho de dizer vamos lá tomar um café e comportarmo-nos como adultos, ou, na maior parte dos casos, algo que se encontra quando menos se espera, como cascas de banana à saída do metro. Somos, então, apanhados de surpresa, porque há muito tempo que não pensamos neles e depois, zás, damos de caras com eles e não sabemos como havemos de reagir. Se dar o nosso melhor sorriso amarelo e vangloriar-nos de como a vida nos começou a correr inexplicavelmente melhor depois de termos acabado a relação, se pegar no nosso spray de pimenta e cegá-los durante vinte segundos, sendo este o tempo suficiente para lhes darmos um pontapé no meio das pernas e nos pirarmos.

Não o via há 9 meses. 9 meses é o tempo de ter um filho, de chegar a uma cidade e adaptar-se, de aprender uma língua, de emagrecer 5 quilos, de ler 6 livros. 9 meses é muito tempo. Mas não senti nada e tive a única reacção possível em casos destes: atravessei a estrada sem olhar para ele. Por sorte, não me achava em nenhuma situação embaraçosa. Até tinha um casaco novo e estava ligeiramente bem-disposta. Não fui de encontro a nenhum poste nem estava a comer nada com que me pudesse engasgar. Não tropecei em nenhuma pedra fora do sítio nem me entrou nenhum mosquito para o olho. Atravessei a estrada como se nada fosse e entrei, como era o meu objectivo inicial, no café de onde ele tinha saído, sem medo de apanhar uma doença mental contagiosa.

Foi um bom encontro casual com um ex-namorado. Fossem todos assim. A verdade é que correu tudo tão bem porque ex-namorados deste tipo não nos deixam quaisquer mazelas sem ser a incompreensão absoluta sobre o nosso comportamento em certas alturas da nossa vida, antes de nos começarmos a questionar sobre o que raio é que estamos a fazer com semelhante criatura. São como as bolachas de aveia do Continente, sabem bem em tempos de maior apetite, mas depois de 4 ou 5 começam a enjoar. Ou como aqueles cds que compramos nas promoções e que só ouvimos uma vez, porque há certas bandas que nunca mais conseguem repetir a proeza do primeiro álbum.
Bom, mas se calhar era melhor começar pelo princípio.


Top 5 das músicas que me fazem lembrar o M.:
1. "Talk" by Coldplay (que era o single da altura mas não se compara a qualquer uma do Parachutes)
2. "Baby can I hold you" by Tracy Chapman (porque ele passava a vida a tocá-la na viola e eu a tentar evitar mostrar o meu desprezo pelos seus gostos musicais)
3. ... (Felizmente não tive tempo para associar mais nenhuma música a esta relação. Passei o tempo a lutar para que Funeral, dos Arcade Fire, que consumia compulsivamente na altura, saísse ileso de recordações menos felizes. E depois acabámos. E os Arcade Fire tornaram-se intemporais.)

Saturday, June 03, 2006

História de uma vida amorosa 1

O meu primeiro amor foi a R. Os tempos eram os do início do ciclo - ainda se chamava assim naqueles tempos - e a paixão foi arrebatadora, tendo em conta a idade. Creio que pensei nela ainda durante umas boas duas semanas. Até a minha mãe chegou a notar que eu não andava normal: quase não tocava nos livros de Uma Aventura e a cassete dos Abba que lhes tinha roubado, a ela e ao meu pai, já não tocava há uns dias na aparelhagem - se podíamos chamar assim a um rádio com um leitor de cassetes que, afortunadamente, estava ligado a umas colunas roufenhas que já tinham perdido metade das peças. Veio falar comigo com aqueles trejeitos maternais, entre o carinhosa e o preocupada que andasse a chocar outra ida ao pediatra para estoirar mais um orçamento mensal da família. Lá confessei o amor pela R., por aqueles caracóis louros, por aquele sorriso luminoso e aquele andar decidido. Claro que naquela altura não me expliquei nesses termos. Saiu um seco «Gosto mesmo dela!» ao que a minha mãe terá sorrido a pensar que ainda tinha muito tempo até ter de se preocupar com potenciais netos repentinos e não anunciados.

Foi realmente coisa para duas semanas. Talvez mesmo uns 18 dias. Andei afectado no recreio e nos tempos livres. Quase não falava com ela e evitava inclusivamente olhar numa direcção geral que a embarcasse. Eram os velhos problemas da maturidade masculina - ou falta dela - perante a feminina - ou excesso dela - com os rapazes a ficarem sempre meio perdidos na presença de qualquer rapariga. As raparigas podiam ter de se preocupar com umas manchas vermelhas nas cuecas, mas a verdade é que tinham uma mãe para lhes falar dos factos dessa vida. Onde andava o pai para nos explicar que o endurecimento súbito de algo que sempre imaginámos como só servindo para se entalar no fecho das calças era causado pelas raparigas de quem nem sequer gostávamos? Complicado, é verdade.

Ao fim desses dias lá voltei à minha ignorância da existência da R. no meu universo, continuei a gastar a cassete dos Abba especialmente na parte do The winner takes it all e manuseei os livros d'Uma Aventura ao ponto de ver as páginas do terceiro capítulo a surgir inesperadamente perto do fim. A vida voltava ao normal e até quase esquecia aquela perturbação. Até que apareceu a C. e percebi que a inocência estava mesmo perdida.

Friday, June 02, 2006

À laia de introdução

High Fidelity foi o título do livro de NIck Hornby. Claro que já sabias isto. Caso contrário não tinhas aqui vindo parar. Fala de amor, pop, romance, soul, relações, rock, sexo, dance. Fala de se começar a ser adulto quando ainda se não o é.

Rob e Laura. Duas personagens da história. Os nossos alias. O motivo de os termos escolhido parece óbvio, por isso não vou estar a fazer desenhos a gente com menos sensibilidade artística que nós. Escolhemos fazer este blogue porque nos identificamos com a história, reconhecemos pedaços da nossa vida naquilo e, obviamente, gostámos tanto do livro como do filme.

Os temas vão andar pelos mesmos caminhos da história. O amor, a música, os livros e os filmes. Afinal pouco mais há a referir neste mundo, certo? Portanto, quem quiser ler coisas sérias, com relações certinhas, casamentos aos 25 anos e com dois filhos, empregos estáveis e hipotecas aos 30 vá a outro lado. Aqui fala-se da realidade. Mesmo que por umas lentes meio coloridas.

rob e laura

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