Do nome dele já não me lembro
Uma festa, muita gente desconhecida, muitos parzinhos formados há muitos anos, eu sozinha desde há muitos anos a tentar não me preocupar com isso.
Entrei na sala e ouvi:
- Arranja-me uma gaja com quem possa foder hoje à noite.
Olharam os dois para mim e calaram-se. Péssimo timing. Por causa desta frase, deixei de lhe ligar. Por causa desta frase pensei que não valeria a pena ornamentar a minha noite solitária com um gajo que não me olhasse nos olhos para me ver.
Antes, tinha havido flirt. Eu e ele a vermo-nos através de duas objectivas. Eu a fotografá-lo a filmar-me. Ele a filmar-me a fotografá-lo. Passámos a noite nisto. De vez em quando os nossos corpos passavam um ao lado do outro. De vez em quando os nossos olhares cruzavam-se de verdade. De vez em quando ele chamava-me para dançar. De vez em quando eu ia, de vez em quando não. E depois ouvi-lhe sair da boca:
- Quero foder esta noite.
Se não lho tivesse ouvido, quem sabe se não teríamos ido para um canto escuro, os outros na sala a beberem copos cheios de mágoa com gelo e tê-lo-ia deixado foder-me com a ilusão de que o estava a fazer comigo. Eu não o faria com ele, mas as coisas que nós pensamos nunca ninguém as sabe.
Depois daquela frase:
- Quero foder com uma gaja qualquer!
deixei de pensar no canto escuro, ele a beijar-me a boca e a morder-me a ânsia, eu a despir as calças, uma mesa, eu em cima da mesa e o que estava lá em cima no chão, ele a foder-me, eu a segurar-lhe a cabeça e a voltar-lhe os olhos para dentro dos meus. Gosto de homens que olhem nos olhos de uma mulher e a consigam ver. Mesmo que não se digam nomes. Mesmo que seja só por uns momentos. Não há nada mais frágil do que o sexo com um desconhecido. Mesmo que toda a gente diga que é mais fácil.
Deixei de pensar nisso e fui para a varanda fumar. Ele não veio atrás de mim e eu não me importei com isso. Quando adormeci, sozinha, no sofá, eles começaram a beijar-se. Ele e ela, agora ele mais ela. A racha da saia descaída, a mão dele no meio das pernas dela, ela de pernas muito brancas e gordas, ele de mãos muitos feias e grandes.
Quando mais tarde acordei, ainda lá continuavam. A mão no mesmo sítio, a racha menos descaída. Perguntei a alguém,
- Não, não saíram daqui a noite toda.
Chiça, que há gente mesmo estúpida.
Na sala, ele a começar a fumar, ouviam-se os Gorillaz. Eu peguei no casaco e fui-me embora. Ela veio atrás de mim. Eu olhei para ela com pena. Não falámos o caminho todo.


