Wednesday, January 03, 2007

Do nome dele já não me lembro

Uma festa, muita gente desconhecida, muitos parzinhos formados há muitos anos, eu sozinha desde há muitos anos a tentar não me preocupar com isso.
Entrei na sala e ouvi:
- Arranja-me uma gaja com quem possa foder hoje à noite.
Olharam os dois para mim e calaram-se. Péssimo timing. Por causa desta frase, deixei de lhe ligar. Por causa desta frase pensei que não valeria a pena ornamentar a minha noite solitária com um gajo que não me olhasse nos olhos para me ver.
Antes, tinha havido flirt. Eu e ele a vermo-nos através de duas objectivas. Eu a fotografá-lo a filmar-me. Ele a filmar-me a fotografá-lo. Passámos a noite nisto. De vez em quando os nossos corpos passavam um ao lado do outro. De vez em quando os nossos olhares cruzavam-se de verdade. De vez em quando ele chamava-me para dançar. De vez em quando eu ia, de vez em quando não. E depois ouvi-lhe sair da boca:
- Quero foder esta noite.
Se não lho tivesse ouvido, quem sabe se não teríamos ido para um canto escuro, os outros na sala a beberem copos cheios de mágoa com gelo e tê-lo-ia deixado foder-me com a ilusão de que o estava a fazer comigo. Eu não o faria com ele, mas as coisas que nós pensamos nunca ninguém as sabe.
Depois daquela frase:
- Quero foder com uma gaja qualquer!
deixei de pensar no canto escuro, ele a beijar-me a boca e a morder-me a ânsia, eu a despir as calças, uma mesa, eu em cima da mesa e o que estava lá em cima no chão, ele a foder-me, eu a segurar-lhe a cabeça e a voltar-lhe os olhos para dentro dos meus. Gosto de homens que olhem nos olhos de uma mulher e a consigam ver. Mesmo que não se digam nomes. Mesmo que seja só por uns momentos. Não há nada mais frágil do que o sexo com um desconhecido. Mesmo que toda a gente diga que é mais fácil.
Deixei de pensar nisso e fui para a varanda fumar. Ele não veio atrás de mim e eu não me importei com isso. Quando adormeci, sozinha, no sofá, eles começaram a beijar-se. Ele e ela, agora ele mais ela. A racha da saia descaída, a mão dele no meio das pernas dela, ela de pernas muito brancas e gordas, ele de mãos muitos feias e grandes.
Quando mais tarde acordei, ainda lá continuavam. A mão no mesmo sítio, a racha menos descaída. Perguntei a alguém,
- Não, não saíram daqui a noite toda.
Chiça, que há gente mesmo estúpida.

Na sala, ele a começar a fumar, ouviam-se os Gorillaz. Eu peguei no casaco e fui-me embora. Ela veio atrás de mim. Eu olhei para ela com pena. Não falámos o caminho todo.

Friday, November 24, 2006

Nostalgia dos anos 90

Esta semana tenho ouvido, todos os dias, músicas que não ouvia há muitos dias. Há tantos dias que todos juntos formam anos. Há tantos anos que todos juntos dão à minha memória o aspecto de um queijo suíço. Como The Cardigans ou aquela que canta assim “Cause you`re gorgeous, I`d do anything for you”. Quando passa na rádio uma destas músicas, sempre entre as 8 e as 8.30 - a hora da nostalgia (para quando os anos 80?), paro no meio do quarto, de toalha na mão e cabelos a pingar, a tentar lembrar-me daquelas viagens de autocarro em que o meu walkman tinha descanso da música obsoleta que gravava do programa Alta Tensão da Antena 3 (todas as noites, de domingo a quinta, ligava a luz às 23:59, preparava a cassete, ligava a aparelhagem aos phones comprados no chinês, carregava no play e voltava a apagar a luz, os meus pais a dormir no quarto ao lado). De quando em quando, lembrava-me da cassete de música pop e isso é que eu gostava de a ouvir enquanto sonhava com o rapaz do 11º C, que usava aparelho, mas eu não me importava. Só alguns meses depois é que viria a saber como se chamava, mas nessa altura já não sonhava com o rapaz do 11º C, mas sim com o cabeludo da paragem do autocarro.

The Cardigans, cassetes, paixões efémeras. Se não soubesse tudo o que já sei hoje, que não é nada, diria que às vezes tenho saudades de ter 16 anos. Em que o meu walkman enrolava as cassetes e o cabeludo da paragem do autocarro nunca me ligava nenhuma. E as Doc Martens, depois de algum tempo, deixaram de me aleijar os pés.

Tuesday, November 14, 2006

Pelo ideal

A ouvir: Where are my panties?, por Andre 3000 e Rosario Dawson.

Há um elemento de pathos na história das relações, uma espécie de sentimento de inevitabilidade que nos faz acreditar que aquela pessoa, a pessoa ideal está ali no caminho, quem sabe ao virar da esquina. Talvez por isso tanta gente tente constantemente encontrar esse ideal, essa pessoa que lhes encha as medidas. Inevitavelmente, a cada novo encontro lá virá a questão tão popularizada: será esta a tal? À falta de resposta recorre-se à experiência: esperar para ver. Com o tempo, mesmo que não seja a tal, pode servir, pelo menos até se ter direito a secretária particular com 24 anos, cintura de vespa e busto 38 D.

Há, depois, o caso inverso: as pessoas que, sabendo a futilidade desta vida, apenas se contentam em encontrar alguém compatível com quem se possa viver o resto da vida, cumprir o instinto de procriar e suportar o resto do tempo que ainda andamos sobre esta esfera. É o meu caso. Parecendo mais fácil não o é. O chato é que as escolhas vão sendo atrasadas e acaba por se ter uma bagagem emocional bem mais carregada. Olha-se - pelo menos eu olho - para cada nova chegada com olhos de avaliação pesada no passado: «Parece porreirinha e independente, mas a C. também era e não me largava da mão...». Há um conjunto de critérios para fazer pesar no assunto e nem todas as mulheres passam neste crivo. A bem dizer, nenhuma passa, os critérios são para a tal mulher ideal.

Desta maneira, a procura, se levada ao extremo, é semelhante nos dois casos, com a vantagem da estabilidade no caso de cima e de um muito maior gozo proporcionado pela diversidade no caso de baixo. Há, no entanto, que criar um ponto de separação e esse é fornecido pela decisão: a decisão de se olhar, apontar o dedo e chamar. Por outras palavras, arriscar mesmo sabendo que há sempre possibilidades do espalhanço. O medo é uma parte demasiado pesada da bagagem, só atrapalha. Ainda assim, caso haja espalhanço, há sempre a possibilidade de «sermos só amigos», assim se saiba querer. E pedir que se apresentem os outros amigos, especialmente aquela de 24 anos, cintura de vespa e busto 38 D que procura trabalho de secretariado.

Sunday, November 12, 2006

It´s all about the way you dance

É mais fácil fechar os olhos aos defeitos, tiques, manias de um homem com quem mantemos uma relação descomprometida. Primeiro porque não estamos todo o tempo juntos e o tempo que o estamos resume-se a passar imediatamente ao que se pretende e acabamos por nunca ter tempo, nem disposição, para assistir aos rituais escabrosos de cortar as unhas para dentro do lava-loiças ou de fazer uma bolinha com o macaco que acabou de tirar do nariz e atirá-la para trás do sofá como quem joga ao guelas. Depois porque, se por um acaso assistirmos a alguma coisa destas, temos uma certa liberdade para nos desmanchamos a rir na cara dele sem medo de ferir acordos pré-nupciais. Ou porque, simplesmente, sabemos de antemão que a relação tem os dias contados e não nos vamos preocupar por aí além se, durante o sexo, as unhas dos pés dele nunca nos arranharem as pernas.

O pior é quando a relação está naquela fase mesmo antes do fim, quando já não nos apetece muito estar com ele, mas a ocasião até se proporciona e não inventámos uma desculpa manhosa a tempo e depois, olha, mais uma queca também não faz mal a ninguém. Só que nem só de quecas vive uma mulher e a verdade é que, às vezes, uma gaja tem de fazer das tripas coração para aguentar muita coisa. Como o fio de pechisbeque que ele teima em usar e que balança por cima de nós e nós fugimos com a boca para não tocarmos no penduricalho que ele não tira nem para dormir. Ou como a barba aparadinha que ao princípio até nos fazia lembrar o Edward Norton, mas que agora nos faz comichão quando ele pensa que nos excita com beijos monótonos no pescoço durante meia-hora (ó homem, passa lá aos preliminares a sério). Ou a maneira como ele dança Queens of the Stone Age como se estivesse a saracotear-se com um cordãozinho de flores ao pescoço no Hawai. Queens of the Stone Age não se dança assim. Só as músicas-do-gozo é que se dançam assim. E eu não sei por que raio é que ando a sair com um gajo que não percebe que QOTSA ou qualquer outro tipo de música que passe em discotecas onde passa QOTSA não é para gozar.

Foi o fim da picada. Pior do que todas as picadas da barba e do penduricalho à homem de Neardental. E por muito que tenha tentado escondê-lo dos amigos e evitar sair com ele em público e guardá-lo em casa como se guardam as coisas de que temos vergonha, não vale a pena, que isto agora já nem com sexo lá vai. E nem é por causa da barba ou das frases feitas ou dos sapatos horríveis. É mesmo porque já não me apetece. E a música parece-me ser uma boa desculpa para acabar uma relação que nunca começou. Já ouvi falar de relações a sério que acabaram por menos. E não estou com vontade de me sentir culpada. Ou será que devia?

Thursday, October 05, 2006

O jantar

Tinha chegado pontualmente, com sapatinhos polidos e um bolo na mão. Fui eu que o fiz, disse-me, ao entrar, como se uma mulher também se prendesse pelo estômago. Agora, sentado à mesa, olhava para mim com curiosidade enquanto eu desligava o fogão.
Queres ajuda?, perguntou, quando me viu a tentar debruçar a panela pesada.
Vivo sozinha, esqueceste-te? Se precisar de um homem para segurar uma panela, terei de rever as minhas prioridades.

Duranto todo o jantar, que de romântico pouco teve, já que me esquecera de tirar as velas e o saca-rolhas se partira antes de conseguir abrir a garrafa de vinho, tentei mostrar-lhe o melhor que pude que a sua presença ali se devia a um acto de caridade para com as aflições corporais e nada mais que isso. No fim, pedir-lhe-ia que não ficasse para dormir, no outro dia teria de me levantar cedo. Quando se despedisse, desejar-me-ia um “fica bem” de quem acaba de decidir não voltar a ver-me próximos dias. E eu, aí, sentiria pena. Dele e de mim. Dele, porque lhe daria um beijo apagado como conclusão de uma série de suspiros e suores quentes e me viraria imediatamente de costas. Porque o convidaria para fumar um cigarro comigo apenas porque não o quereria fazer sozinha. Porque começaria a falar de outras coisas como se ele fosse um amigo gay. De mim, porque ele me faria lembrar como eu era há uns anos, como eu esperava por reacções, sabendo que nunca lhe poderia dizer que aquilo para mim era mais do que apenas uma hora de sexo, e porque o olhava com medo que o meu olhar me traísse e quando me ia embora, sabia que ele não ia pensar mais em mim. Assim como, neste domingo, eu iria dormir sem pressas como num domingo normal e, depois de acordar, sozinha, não me lembraria sequer de me lembrar da noite anterior. Sentiria, apenas, que o meu corpo estava muito mais calmo. Como por um acto de magia.

Poder-me-ia sentir mal com isso. Mas não suporto homens que se encharcam em perfume.

Sunday, October 01, 2006

Outra vez


Banda Sonora para o post: Never gonna fall in love again, Snow Patrol

Faz parte do crescimento, diz-se. Apaixonarmo-nos, amarmos fervorosamente, sermos felizes, termos o coração partido, pensarmos que nunca amaremos outra vez. É quase inevitável e o último ponto é mais frequente na adolescência. Quem não o passou que levante o braço. Vamos lá, larguem o rato ou o teclado e levantem o braço. Ninguém?... Bem me parecia.

Não, não vou dizer que sou o único. Porra, bem longe disso. Duas mulheres no meu passado (OK, a primeira era mais do tipo rapariga) bem existem na minha memória para o atestar. Com o primeiro caso a coisa foi complicada, tal como todas nos tempos de secundário. Tive de fazer um esforço para a esquecer e convencer-me que encontraria outra. Ou outras, como descobri mais tarde. Mas não as amava. Quer dizer, não por muito tempo, isso só voltou a acontecer mais tarde.

E foi o pior caso. Já falei dele antes, mas claro que as coisas não foram tão simples quanto isso. Como se pode ver no post, fiquei mais cínico, menos propenso à abertura das novas relações. Também a idade não ajudou, antes complicou. Os jogos não satisfazem, aborrecem. Vejo mais facilmente as falhas nas mulheres que conheço. Há como que um catalogar das mulheres por defeitos após o primeiro contacto. Há, no fundo, e usando de psicologia de algibeira (ou de cinema, dependendo da perspectiva), um receio intímo da nova relação. Há um receio de me perder novamente ao pronunciar novamente a palavra, especialmente porque tenho a enervante tendência de apenas a proferir quando ela expressa a realidade.

Claro que esta psicologia, mesmo sendo de algibeira, está parcialmente correcta. Esse receio está presente e não mais é que humano. Claro que a sua presença nesta idade só pode significar que não resolvi correctamente certos assuntos no passado, mas enfim, há que preserverar. O outro ponto importante a sensação de não me poder voltar a apaixonar. Lá está, never gonna fall in love again. Esta sensação, por se ter verificado desde há bastante tempo, assumiu contornos de certeza. É uma certeza pífia, bem o sei. A única certeza que posso ter é que realmente me voltarei a apaixonar no futuro. O problema é se não o noto, se estou tão certo que não é possível que isso acaba por não acontecer. Para mais, para a palavra sair dos meus lábios, tem que ser transmitida numa intimidade que não se consegue num encontro, acabe ele onde acabar.

Há contudo um twist nesta história. Não tenho medo de dizer a palavra, não terei medo de assumir o amor que venha a ter e a partilhar. Não é o momento que me assusta. É a possibilidade de esse momento desaparecer. Ainda assim, feliz ou infelizmente, é precisamente dessa forma que as coisas funcionam. E é o desconhecido que torna tudo tão interessante. E que desactualiza a música dos Snow Patrol, já agora.

Wednesday, September 20, 2006

Nice to meet you

Há conversas que fluem, há conversas que não fluem. É tão simples como isto. E, nestes casos, os primeiros 3 minutos são essenciais.

Conheci-o há duas semanas numa discoteca. Seria mais fácil dizer que não sei porque lhe dei o número de telefone. Mas o problema é que sei. Dei-lho por puro tédio, não que não me estivesse a divertir, mas porque ultimamente ando farta de estar sempre sozinha. Faz 6 anos que estou sozinha. Não contam as relações que vou tendo aqui e ali, porque acabo por me sentir sempre sozinha, eram relações condenadas à partida, mesmo antes de eu perceber porquê. Nessa noite, nesse momento, enquanto dançava os meus All Time Favourites, percebi que queria entrar numa nova fase, percebi que já estava receptiva, que já podia dar um pouco de mim a outra pessoa, e foi quando o M. me pediu o número de telefone.
Ao princípio recusei. Disse-lhe que só queria dançar. Mas ele foi tão simpático por não insistir que acabei por ser eu a insistir.

Duas semanas depois encontrámo-nos. Não estava segura de o reconhecer. Lembro-me que só lhe perguntei o nome quando me telefonou (à segunda vez, porque à primeira não lhe atendi o telefone) e só sabia que usava uma camisa às riscas azuis na noite em que nos conhecemos.
Reconheci-o. Mas ele não me reconheceu. Passou por mim duas vezes sem me ver e eu deixei-o passar sem lhe dizer nada. Talvez tivesse sido melhor ter-me ido logo embora, mas a noite ainda era uma criança.

Fomos para um bar um pouco chique demais para o meu gosto, mas não lhe disse nada. Sincera demais já fui eu quando lhe perguntei se podíamos ser só amigos, pelo menos ao princípio. Não gosto de coisas à pressa. Vê-se como bebo a cerveja tão calmamente. Mas ontem bebi-a mais depressa do que o costume. E disse-lhe que, quando acabasse a cerveja dele, gostaria de me ir embora. A modos de brincadeira, pousou o copo e fingiu que não a ia beber logo, para poder ficar mais um pouco comigo. Mas, ao olhar para mim e ver que estava a falar a sério, pegou no copo e bebeu o líquido de um trago, como se tivesse sido acomedido por uma sede imensa.

Mesmo assim, levou-me ao metro, por um cavalheirismo desmedido que lhe podia ter ficado mal. Pediu-me desculpas pela brandura da conversa, mas que isto de sair durante a semana tem os seus quês. Eu acenei-lhe que não se preocupasse, realmente terças-feiras não são um bom dia para se conhecer melhor alguém. É claro que foi uma desculpa. O que eu lhe queria realmente dizer é que não era para ser ele ali sentado. Mas não lhe disse isso. De qualquer maneira duvido que me volte a telefonar. Eu, pelo menos, não o vou fazer.

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